
Cristiana Bolli • @menopausa.cristianabolli
Especialista em sexologia somática, com mais de 700 pessoas atendidas na Europa
Quando se fala em menopausa, os holofotes quase sempre recaem sobre ondas de calor, insônia, alterações de humor e secura vaginal. Mas existe um sintoma invisível, raramente citado até em consultórios médicos, que atravessa silenciosamente a vida de muitas mulheres: o colapso sensorial.
Esse termo descreve não apenas a queda da libido ou do desejo, mas um desconforto mais profundo: a alteração da percepção do corpo e das sensações. A mulher se olha no espelho e não se reconhece. O toque chega, mas não ecoa. O prazer parece ter sido reduzido ao mínimo.
O hábito de sentir menos
Esse colapso não acontece de um dia para o outro. Ele é resultado de anos de treinamento silencioso do sistema nervoso para sentir cada vez menos.
Desde cedo, aprendemos a dar mais atenção à dor do que ao prazer.
Reclamamos de uma noite mal dormida, de uma dor nas costas, de um incômodo qualquer. Mas raramente dizemos em voz alta: “Hoje acordei me sentindo maravilhosa”, ou “Olhei meu braço no espelho e achei lindo”.
O que é bom fica escondido. O que é doloroso, a gente engrandece.
Esse hábito de somatizar o negativo e descartar o positivo molda a forma como o corpo responde. Não é surpresa, portanto, que ao chegar no climatério, ao desencadear a transição para a menopausa e para a maturidade, aquilo que antes era prazeroso se apaga. O corpo, já treinado a sentir menos, entra nesse novo ciclo mais vulnerável, e os sinais do colapso sensorial se tornam evidentes.
O corpo estressado
Quando falamos em queda de estrogênio ou testosterona, é fácil imaginar que se trata apenas de pele fina ou perda de colágeno. Mas o impacto é mais profundo. As terminações nervosas estão estressadas. O sistema está cheio de microbloqueios, como pequenos nós que encurtam a comunicação entre pele e cérebro.
Não é que a sensualidade desapareceu. É que o corpo foi treinado a não sentir nada de bom. E, em estado de estresse, ele se protege reduzindo a percepção — menos dor, menos prazer, menos resposta.
A boa notícia é que isso não é definitivo. Assim como foi treinado a sentir menos, o sistema nervoso pode ser reeducado a sentir mais. Mas não pela força, não pelo “apertar ainda mais”, não pela busca compulsiva de intensidade. É pela regulação, pela calma, por práticas neuroprotetoras que diluem esses bloqueios e reacendem rotas esquecidas.
Reaprender o que o corpo já sabe
Não se trata de aprender algo novo. Trata-se de reatar com algo que sempre esteve lá. O corpo nunca perdeu a capacidade de sentir. Ele apenas desligou os circuitos como forma de proteção.
O meu método parte exatamente dessa premissa: não há pressão, não há exigência de performance. É um reaprender, suave e progressivo, que reacende o que já está nas células. Cada gesto, cada micro-sensação, cada pausa vira uma oportunidade de reconstruir o mapa do prazer.
O colapso sensorial não é falha, não é desinteresse, não é desamor. É um fenômeno fisiológico e cultural, reforçado por anos de hábito. Nomear é o primeiro passo para quebrar esse silêncio. Reconhecer é abrir espaço para que o corpo volte a fazer o que sabe de melhor: sentir.
Referências citadas:
Rosemary Basson — Using a Different Model for Female Sexual Response (2001)
Ellen Bass — Ce corps qui m’appartient (2011)
Nan Wise — Why Good Sex Matters (2020)
Norman Doidge — O Cérebro que se Transforma (2007)
Caffyn Jesse — Body to Brain
Especialista em neuroplasticidade aplicada ao corpo feminino, com mais de uma década de estudo e prática clínica, Cristiana criou uma abordagem que integra saúde hormonal, escuta somática e vitalidade sensorial.
Especialista em neuroplasticidade aplicada ao corpo feminino, com mais de uma década de estudo e prática clínica, Cristiana criou uma abordagem que integra saúde hormonal, escuta somática e vitalidade sensorial.